Saturday, December 24, 2016

O meu Natal

Neste Natal resolvi voltar aos tempos de criança e voltar a acreditar... acreditar que é possível e que pode fazer a diferença na minha vida. Por isso, querido Pai Natal, espero que me leias com atenção, não precisas de ser apressado e de trazer-me já o que mais quero, pode vir aos pouquinhos, sem precipitação. Esta noite prefiro que ilumines os olhos das crianças, o Natal é um pouco mais delas do que nosso, faz brilhar os olhos do meu Afonso e humedeces também um pouco os meus. Amanhã, quando regressares para casa após uma árdua noite de trabalho podes concentrar-te nas minhas palavras em sossego... O que te peço? nada de muito exigente, não quero bens materiais, quero que me dês um bocadinho de felicidade, um pouco mais de amor, um novo e tremendo amor, uma deliciosa paixão que se propaga, a definitiva e eterna lembrança. Quero que me dês coragem para lutar e acreditar sempre e um pouco mais de travessura para desprender-me de todos estes medos. Quero ainda que todos os meus amigos sejam felizes e que o sorriso seja predominante nos seus rostos e a que a calmaria esteja sempre presente nos seus olhares. Por isso, querido Pai Natal, neste tempo de acreditar só quero que me escutes e tornes-me numa criança tonta e inocente para que no próximo ano eu possa sentar-me a escrever-te novamente e a transbordar de alegria.


Tuesday, November 29, 2016

"Medo", "Até o silêncio tem um fim" por Ingrid Betancourt


"O medo é normal. Para alguns o medo é um travão; para outros, é um motor. O importante é não nos deixarmos dominar por ele. Quando tomas a decisão de te evadires, fazes isso friamente, racionalmente. A preparação é essencial, porque na acção sob o efeito do medo, não deves pensar, tens de agir. E actuas por etapas. (...) O medo, tu sente-lo, tu aceita-lo, mas deixa-lo de lado."

Ingrid Betacourt in "Até o silêncio tem um fim"


Saturday, November 19, 2016

"Castigo", Capítulo XII, Sonata Kreutzer - Lev Tolstoi


"Castigo", Capítulo XII, Sonata Kreutzer - Lev Tolstoi

"Mais cedo ou mais tarde, cada vez que violamos as leis morais recebemos a devida punição. Assim, todos os meus esforços para tornar a lua-de-mel num sucesso foram condenados ao fracasso. Foi um período de vergonha, tédio, acabando por se transformar numa verdadeira tortura.
De facto, esta alteração ocorreu desde muito cedo. Um dia, encontrando a minha mulher entediada... penso ter sido no terceiro ou quarto dia de casados... perguntei-lhe qual era a causa da sua melancolia e comecei a abraçá-la, pensando eu que seria isto o que ela pretenderia da minha pessoa; mas afastando os meus braços,começou a chorar. - O que se passa? - perguntei. Foi incapaz de mo confessar, mas a sua tristeza e o seu desânimo eram notórios. Era possível que os seus nervos lhe tivessem revelado a natureza da nossa relação; mas não sabia expressar o que já sentia instintivamente. Questionei-a várias vezes sobre a razão do seu estado; murmurou-me sentir saudades da mãe. Percebi não ser essa a razão, e continuei a consolá-la sem fazer referência ao que me dissera. Não compreendera o seu abatimento moral, e que o facto de ter falado na mãe era apenas uma desculpa; pegando no pretexto de não ter feito a referência à sua mãe, mostrou-se ofendida, por não ter acreditado nela. Agora via que eu não a amava. Censurei-a chamando-a caprichosa;o seu rosto transfigurou-se de imediato. A tristeza deu lugar a uma irritação, passando a recriminar-me,usando as palavras mais rancorosas, e apelidando-me de egoísta e cruel. Olhei-a fixamente; todo o seu ser expressava frieza e hostilidade... quase posso dizer ódio... em relação à minha pessoa.
Recordo-me de ter sentido invadido pelo horror; o que significava? Mas como poderia ser? O amor personifica a união de duas almas? E, em seu lugar, isto! Mas será possível?- Questionei-me. - Esta não é seguramente a mulher que eu conheço!
Fiz todos os esforços para a acalmar, mas rapidamente me deparei com uma parede inexpugnável de frieza e hostilidade venenosa; sem saber como, senti-me a ser chicoteado até um estado de irritação extrema, do qual resultou uma verborreia de agressões mútuas.
Foi demasiado horrível a impressão deixada por esta nossa primeira discussão. Chamei-lhe discussão, mas na verdade era algo mais grave, era a descoberta do abismo criado entre nós. Aquilo a que chamára-mos de "amor" tinha-se esgotado; e ali estávamos, frente a frente, dois egoístas e dois estranhos.
Nem então tomei consciência de que essa frieza e hostilidade constituíam a nossa relação; isto também acontecia porque logo a seguir ao casamento estes sentimentos eram escondidos pelos "vapores do amor"; assim, parti do princípio de que o sucedido fora uma mera discussão à qual se seguiria a reconciliação, e que esses desentendimentos semelhantes nunca mais iam ocorrer.
Pouco tempo depois, ainda durante o primeiro mês de lua-de-mel (uma época em que por vezes deixamos de ser necessários um ao outro) irrompeu a segunda discussão. Esta impressionou-me ainda mais profundamente que a primeira. Então a primeira discussão não fora um mero acidente, disse para comigo, era o resultado de uma necessidade , que se ia repetir devido a essa mesma necessidade.Mas o que me chocou ainda mais nesta segunda discussão foi a total ausência de um pretexto. Teve a ver com dinheiro, algo de tão mesquinho que eu não pensara associar à minha mulher; recordo-me de ela me acusar de suborno, e de me criticar por eu dizer que era um direito que me assistia. Era uma acusação sem qualquer fundamento,idiota, malévola e monstruosa.
Perdi as estribeiras e censurei-a sem rodeios; por sua vez ela recriminou-me; e ao olhar a expressão do seu rosto, li nos seus olhos a mesma crueldade e inimizade deliberadas que tinham gelado o meu coração na primeira discussão.
Lembro-me de ter tido algumas discussões com o meu pai e o meu irmão; mas nunca tinha ficado aquele ódio amargo que existia entre a minha mulher e eu. Mas não se passou muito tempo sem que este ódio tivesse sido disfarçado de "amor" e, mais uma vez,me consolei, dizendo a mim próprio que estas discussões tinham sido erros,apenas desentendimentos que facilmente seriam esclarecidos. Mas a terceira e quarta discussões dissiparam esta ilusão; tomei consciência de que não se tratava de acidente ou desentendimento,mas o resultado de uma necessidade; apercebi-me que a nossa relação seria sempre assim, e que estas discussões se repetiriam uma após outra.
O meu coração gelou ao pensar no nosso futuro. O meu sofrimento tornou-se ainda mais profundo, só de imaginar que iríamos viver numa eterna discórdia, (exactamente o contrário do que eu planeara e de que tantas vezes me gabara.) Os outros eram mais felizes do que nós. Naquele altura desconhecia que a maior parte dos casais também vivia assim; e os outros também assumiam que a sua infelicidade... tal como a minha... era invulgar; só que a escondiam das outras pessoas e faziam todos os esforços para a ocultar deles próprios.
No nosso caso esta infelicidade começou a seguir ao casamento, aumentando gradualmente de intensidade e crueldade. Logo após as primeiras semanas de casados senti,com todo o meu coração, ter sido apanhado numa armadilha; o que eu ambicionara ter no meu casamento... uma fonte de felicidade... tornara-se em algo muito diferente, um fardo muito pesado de carregar; mas, como todos os outros casais, recusava-me a admitir tal, não só pelos que me rodeavam... mesmo que isto durasse toda a minha vida... mas também por mim mesmo.
Agora, quando penso nisto, é um verdadeiro mistério para mim, como pude estar cego tanto tempo relativamente à vida que levava. Era fácil de notar que todas as nossas discussões se baseavam em ninharias e que, depois de feitas as pazes, já nem tão pouco nos lembrávamos do que tinha estado na sua origem. A capacidade de raciocínio não era suficientemente rápida a criar pretextos ilusórios que alimentassem a constante hostilidade da nossa relação. Se as discussões eram cada vezes mais frequentes, os motivos para as reconciliações eram cada vez menores. Ocasionalmente estes tomavam a forma de palavras, explicações, até mesmo lágrimas,mas por vezes... essa lembrança provoca-me um verdadeiro desgosto... quando nos tínhamos recriminado de forma mais vim e amarga, seguia-se um período de silêncio que culminava em sorrisos, beijos e abraços."


Wednesday, November 09, 2016

O Reencontro - Parte ...

Tinha sido há tanto tempo que até já não nos recordávamos do momento: seria noite ou dia? frio ou calor? Sol ou chuva? Passara efectivamente tempo, demasiado tempo, mas ao contrário de muitas coisas que se perdem com o desgaste temporal, este sentimento benevolente, manteve-se inalterado. É maravilhoso reencontrar alguém que nos diz tanto e reconforta e vê-lo a brilhar como outrora o fazia num outro local, num outro tempo... e pensar que o tempo passou mas a conexão continua verdadeira e real e nem os tempos mudos onde a sonata da ausência tocou apagaram uma autêntica cumplicidade e naturalidade de encarar a vida. Os dilemas esses perduram, parece que nos atolamos sempre em sensações descabidas e desnecessárias e revelamos um ao outro em confidencias os nossos perigos, receios e histórias vergonhosas... não seria natural se assim não acontecesse. Em suma, nada mudou... viveremos sempre com a consciência preguiçosa de aquela cegonha nos trouxe nas mesmas asas mas que deixou-nos em pontos de partida distintos, que o tempo nos guardará nem que mais seis anos se passem e que, provavelmente, a sonata do silêncio nos embalará de novo mas, conscientemente sabemos que apesar do tempo o próximo reencontro será vivido da mesma forma: natural, cúmplice e simples. 

Este é o Marco e aquela é a Inês, somos cúmplices de uma vida cheia de tumultuosos labirintos, terramotos inesperados e paredes deliberadamente rabiscadas e continuaremos a abraçar-nos com intensidade nos reencontros e nas despedidas... Porque é assim que nós somos.

Tuesday, October 25, 2016

Saudade

Saudade é solidão acompanhada, 
é quando o amor ainda não foi embora, 
mas o amado já.

Saudade é amar um passado que ainda não passou, 
é recusar um presente que nos machuca, 
é não ver o futuro que nos convida...

Saudade é sentir que existe o que não existe mais.

Saudade é o inferno dos que perderam, 
é a dor dos que ficaram para trás, 
é o gosto de morte na boca dos que continuam.

Só uma pessoa no mundo deseja sentir saudade: 
aquela que nunca amou. 

E esse é o maior dos sofrimentos: 
não ter por quem sentir saudades, 
passar pela vida e não viver. 

O maior dos sofrimentos é nunca ter sofrido.

Pablo Neruda

Wednesday, September 28, 2016

"O Grande Amor"

Haja o que houver,
há sempre um homem, para uma mulher.
E há de sempre haver para esquecer,
um falso amor e uma vontade de morrer.
Seja como for há de vencer o grande amor,
que há de ser no coração
Como um perdão
Pra quem chorou.

Tom Jobim

Tuesday, September 27, 2016

Laurinha

Laura, foste amor desde o primeiro segundo, nasceste e renasceste dentro de mim e criaste sólidos instintos paternais os quais ainda estavam adormecidos dentro de mim. Este é daqueles casos em que colocamos o hipotético em prática e sentimo-nos dentro desse mundo, uma parte dessa idealização. Vou contar-te uma variação de sentidos onde te englobas na minha vida antes do teu nascimento… Escrevi-te e descrevi-te onde soavas a felicidade e provocavas sorrisos, o rosto da tua mãe não tinha feições claras, perdi-as num caminho atribulado há pouco tempo atrás mas sei que daqui a uns tempos vou ter a sorte de não só as idealizar como vê-las pintadas no meu peito e aí surgirás também tu, matarei as saudades desta recriação e poderei apertar-te entre os meus braços protegendo-te deste mundo e de todos os desequilíbrios que a natureza coloca nesta vida. Minha querida Laura por vagos momentos deste-me o conforto de apagar a tristeza que muitas vezes este ser pensante tantas vezes sente e afeiçoei-me a ti através de um silêncio profundo, sorrindo. Tenho esperança que esta lista de esperas seja tal como o teu nome indica uma concretização triunfante.

M.M.

Wednesday, September 21, 2016

Rökning Dödar


Ele estava farto e cansado de ouvir o seu relógio de hora a hora a tocar entusiasticamente, era algo verdadeiramente aborrecido, que o desconcentrava sem parar. Então puxava de mais um cigarro e queimava a loucura que as horas lhe traziam de bandeja, vinham embrulhadas em reflexos prateados, tudo muito requintado, simbolismos puros de glamour. O processo foi levado por uma simplicidade brutal, puxou pelo seu vício e ateou a loucura em chamas. O nobre vício que iria queimar os seus pensamentos, ou faria o renascimento dos mesmos? Digamos que muito pensou sobre as nuvens de fumo expelidas pelo pequeno mestre.
Tratava-se de algo idêntico a um sorteio de uma tômbola gigante; roda menina essa coisa circular que nunca mais pára e dir-te-ei o que a loucura assim mo diz. Rodou energicamente e parou, tirou a etiqueta dourada e leu bem alto: “as dores enunciadas pelo seu coração”, então colocou a etiqueta a dormitar no seu bolso e voltou a rodar, desta vez mais enfraquecida, parou e leu bem alto, entoando a sua voz fina: “as gargalhadas que ficaram para dar em algum minuto da sua semana”, e colocou a indicação embrulhada no seu outro bolso. E voltou a rodar, cada vez com menos energias, a tômbola mágica quase não se moveu, retirou a etiqueta e leu baixinho “a importância que dás a certos tópicos”. Então o pequeno mestre, olhou-a atentamente a colocar a etiqueta enrolada na primeira, juntou-as e colocou-as no mesmo bolso. Então questionou-a: “Porque quero eu ver essa roda a girar se só me saem etiquetas douradas com pensamentos sem sentido?” Ela, espantada pela questão repentina, respondeu timidamente: “És tu que escolhes as etiquetas”, perplexo encolheu os ombros resignado, queimando as réstias da sua loucura, e questionou mais uma vez: “Porque enrolaste a primeira etiqueta à última?”. Ela calmamente sorriu, e em poucas palavras, as que lhe foram permitidas, disse: “É a razão de tudo, no silêncio…”.
Desapareceu a nuvem de fumo pela madrugada, guardando no silêncio o enquadramento das etiquetas da loucura. E o relógio que não pára de tocar…e esta loucura que na Escadinávia é condenada pelo termo Rockning Dödar.
M.M.

Saturday, June 25, 2016

"Ninguém se enganava sobre a sua natureza"

"Com o tempos calmo tornava-se mais surdo por causa da espessura da parede, mas estava sempre ali, o ritmo calmo do mar. Ninguém se enganava sobre a sua natureza. Quando as tempestades eram fortes, em certas noites, ouvia-se claramente o assalto das ondas contra a parede do quarto e a rebentação através das palavras."

Marguerite Duras, in "Olhos azuis cabelo preto"

Sunday, June 19, 2016

No retorno, um pouco de Karel Čapek.

Life is not to have fun
— it is to suffer,
be enchanted,
be amazed.

Karel Čapek

Thursday, July 17, 2014

Extractos de cinema: Les Poupées russes




"I know you're not always perfect. I know you have tons of problems, defects, imperfections... but who doesn't? It's just that I prefer your problems. I'm in love with your imperfections. Your imperfections are just great!
[...
I know most girls they get weak on their knees for what's beautiful, you know, that's all they see, that's all they want. But I'm not like that. I don't just see what's beautiful. I fall for the other stuff. I love what's not perfect. It's just how I am. "

Sunday, June 29, 2014

Passagem das Horas - Fernando Pessoa

Trago dentro do meu coração,
Como num cofre que se não pode fechar de cheio,
Todos os lugares onde estive,
Todos os portos a que cheguei,
Todas as paisagens que vi através de janelas ou vigias,
Ou de tombadilhos, sonhando,
E tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero.
A entrada de Singapura, manhã subindo, cor verde,
O coral das Maldivas em passagem cálida,
Macau à uma hora da noite... Acordo de repente...
Yat-lô--ô-ôôô-ô-ô-ô-ô-ô-ô...Ghi-...
E aquilo soa-me do fundo de uma outra realidade...
A estatura norte-africana quase de Zanzibar ao sol...
Dar-es-Salaam (a saída é difícil)...
Majunga, Nossi-Bé, verduras de Madagascar...
Tempestades em torno ao Guardafui...
E o Cabo da Boa Esperança nítido ao sol da madrugada...
E a Cidade do Cabo com a Montanha da Mesa ao fundo...
Viajei por mais terras do que aquelas em que toquei...
Vi mais paisagens do que aquelas em que pus os olhos...
Experimentei mais sensações do que todas as sensações que senti,
Porque, por mais que sentisse, sempre me faltou que sentir
E a vida sempre me doeu, sempre foi pouco, e eu infeliz.
A certos momentos do dia recordo tudo isto e apavoro-me,
Penso em que é que me ficará desta vida aos bocados, deste auge,
Desta entrada às curvas, deste automóvel à beira da estrada, deste aviso,
Desta turbulência tranqüila de sensações desencontradas,
Desta transfusão, desta insubsistência, desta convergência iriada,
Deste desassossego no fundo de todos os cálices,
Desta angústia no fundo de todos os prazeres,
Desta sociedade antecipada na asa de todas as chávenas,
Deste jogo de cartas fastiento entre o Cabo da Boa Esperança e as Canárias.
Não sei se a vida é pouco ou demais para mim.
Não sei se sinto de mais ou de menos, não sei
Se me falta escrúpulo espiritual, ponto-de-apoio na inteligência,
Consangüinidade com o mistério das coisas, choque
Aos contatos, sangue sob golpes, estremeção aos ruídos,
Ou se há outra significação para isto mais cômoda e feliz.

Seja o que for, era melhor não ter nascido,
Porque, de tão interessante que é a todos os momentos,
A vida chega a doer, a enjoar, a cortar, a roçar, a ranger,
A dar vontade de dar gritos, de dar pulos, de ficar no chão, de sair
Para fora de todas as casas, de todas as lógicas e de todas as sacadas,
E ir ser selvagem para a morte entre árvores e esquecimentos,
Entre tombos, e perigos e ausência de amanhãs,
E tudo isto devia ser qualquer outra coisa mais parecida com o que eu penso,
Com o que eu penso ou sinto, que eu nem sei qual é, ó vida.

Cruzo os braços sobre a mesa, ponho a cabeça sobre os braços,
É preciso querer chorar, mas não sei ir buscar as lágrimas...
Por mais que me esforce por ter uma grande pena de mim, não choro,
Tenho a alma rachada sob o indicador curvo que lhe toca...
Que há de ser de mim? Que há de ser de mim?

Correram o bobo a chicote do palácio, sem razão,
Fizeram o mendigo levantar-se do degrau onde caíra.
Bateram na criança abandonada e tiraram-lhe o pão das mãos.
Oh mágoa imensa do mundo, o que falta é agir...
Tão decadente, tão decadente, tão decadente...
Só estou bem quando ouço música, e nem então.
Jardins do século dezoito antes de 89,
Onde estais vós, que eu quero chorar de qualquer maneira?

Como um bálsamo que não consola senão pela idéia de que é um bálsamo,
A tarde de hoje e de todos os dias pouco a pouco, monótona, cai.

Acenderam as luzes, cai a noite, a vida substitui-se.
Seja de que maneira for, é preciso continuar a viver.
Arde-me a alma como se fosse uma mão, fisicamente.
Estou no caminho de todos e esbarram comigo.
Minha quinta na província,
Haver menos que um comboio, uma diligência e a decisão de partir entre mim e ti.
Assim fico, fico... Eu sou o que sempre quer partir,
E fica sempre, fica sempre, fica sempre,
Até à morte fica, mesmo que parta, fica, fica, fica...

Torna-me humano, ó noite, torna-me fraterno e solícito.
Só humanitariamente é que se pode viver.
Só amando os homens, as ações, a banalidade dos trabalhos,
Só assim - ai de mim! -, só assim se pode viver.
Só assim, o noite, e eu nunca poderei ser assim!

Vi todas as coisas, e maravilhei-me de tudo,
Mas tudo ou sobrou ou foi pouco - não sei qual - e eu sofri.
Vivi todas as emoções, todos os pensamentos, todos os gestos,
E fiquei tão triste como se tivesse querido vivê-los e não conseguisse.
Amei e odiei como toda gente,
Mas para toda a gente isso foi normal e instintivo,
E para mim foi sempre a exceção, o choque, a válvula, o espasmo.

Vem, ó noite, e apaga-me, vem e afoga-me em ti.
Ó carinhosa do Além, senhora do luto infinito,
Mágoa externa na Terra, choro silencioso do Mundo.
Mãe suave e antiga das emoções sem gesto,
Irmã mais velha, virgem e triste, das idéias sem nexo,
Noiva esperando sempre os nossos propósitos incompletos,
A direção constantemente abandonada do nosso destino,
A nossa incerteza pagã sem alegria,
A nossa fraqueza cristã sem fé,
O nosso budismo inerte, sem amor pelas coisas nem êxtases,
A nossa febre, a nossa palidez, a nossa impaciência de fracos,
A nossa vida, o mãe, a nossa perdida vida...

Não sei sentir, não sei ser humano, conviver
De dentro da alma triste com os homens meus irmãos na terra.
Não sei ser útil mesmo sentindo, ser prático, ser quotidiano, nítido,
Ter um lugar na vida, ter um destino entre os homens,
Ter uma obra, uma força, uma vontade, uma horta,
Unia razão para descansar, uma necessidade de me distrair,
Uma cousa vinda diretamente da natureza para mim.

Por isso sê para mim materna, ó noite tranqüila...
Tu, que tiras o mundo ao mundo, tu que és a paz,
Tu que não existes, que és só a ausência da luz,
Tu que não és uma coisa, rim lugar, uma essência, uma vida,
Penélope da teia, amanhã desfeita, da tua escuridão,
Circe irreal dos febris, dos angustiados sem causa,
Vem para mim, ó noite, estende para mim as mãos,
E sê frescor e alívio, o noite, sobre a minha fronte...
'Tu, cuja vinda é tão suave que parece um afastamento,
Cujo fluxo e refluxo de treva, quando a lua bafeja,
Tem ondas de carinho morto, frio de mares de sonho,
Brisas de paisagens supostas para a nossa angústia excessiva...
Tu, palidamente, tu, flébil, tu, liquidamente,
Aroma de morte entre flores, hálito de febre sobre margens,
Tu, rainha, tu, castelã, tu, dona pálida, vem...

Sentir tudo de todas as maneiras,
Viver tudo de todos os lados,
Ser a mesma coisa de todos os modos possíveis ao mesmo tempo,
Realizar em si toda a humanidade de todos os momentos
Num só momento difuso, profuso, completo e longínquo.

Eu quero ser sempre aquilo com quem simpatizo,
Eu torno-me sempre, mais tarde ou mais cedo,
Aquilo com quem simpatizo, seja uma pedra ou uma ânsia,
Seja uma flor ou uma idéia abstrata,
Seja uma multidão ou um modo de compreender Deus.
E eu simpatizo com tudo, vivo de tudo em tudo.
São-me simpáticos os homens superiores porque são superiores,
E são-me simpáticos os homens inferiores porque são superiores também,
Porque ser inferior é diferente de ser superior,
E por isso é uma superioridade a certos momentos de visão.
Simpatizo com alguns homens pelas suas qualidades de caráter,
E simpatizo com outros pela sua falta dessas qualidades,
E com outros ainda simpatizo por simpatizar com eles,
E há momentos absolutamente orgânicos em que esses são todos os homens.
Sim, como sou rei absoluto na minha simpatia,
Basta que ela exista para que tenha razão de ser.
Estreito ao meu peito arfante, num abraço comovido,
(No mesmo abraço comovido)
O homem que dá a camisa ao pobre que desconhece,
O soldado que morre pela pátria sem saber o que é pátria,
E o matricida, o fratricida, o incestuoso, o violador de crianças,
O ladrão de estradas, o salteador dos mares,
O gatuno de carteiras, a sombra que espera nas vielas —
Todos são a minha amante predileta pelo menos um momento na vida.

Beijo na boca todas as prostitutas,
Beijo sobre os olhos todos os souteneurs,
A minha passividade jaz aos pés de todos os assassinos
E a minha capa à espanhola esconde a retirada a todos os ladrões.
Tudo é a razão de ser da minha vida.

Cometi todos os crimes,
Vivi dentro de todos os crimes
(Eu próprio fui, não um nem o outro no vicio,
Mas o próprio vício-pessoa praticado entre eles,
E dessas são as horas mais arco-de-triunfo da minha vida).

Multipliquei-me, para me sentir,
Para me sentir, precisei sentir tudo,
Transbordei, não fiz senão extravasar-me,
Despi-me, entreguei-rne,
E há em cada canto da minha alma um altar a um deus diferente.

Os braços de todos os atletas apertaram-me subitamente feminino,
E eu só de pensar nisso desmaiei entre músculos supostos.

Foram dados na minha boca os beijos de todos os encontros,
Acenaram no meu coração os lenços de todas as despedidas,
Todos os chamamentos obscenos de gesto e olhares
Batem-me em cheio em todo o corpo com sede nos centros sexuais.
Fui todos os ascetas, todos os postos-de-parte, todos os como que esquecidos,
E todos os pederastas - absolutamente todos (não faltou nenhum).
Rendez-vous a vermelho e negro no fundo-inferno da minha alma!

(Freddie, eu chamava-te Baby, porque tu eras louro, branco e eu amava-te,
Quantas imperatrizes por reinar e princesas destronadas tu foste para mim!)
Mary, com quem eu lia Burns em dias tristes como sentir-se viver,
Mary, mal tu sabes quantos casais honestos, quantas famílias felizes,
Viveram em ti os meus olhos e o meu braço cingido e a minha consciência incerta,
A sua vida pacata, as suas casas suburbanas com jardim,
Os seus half-holidays inesperados...
Mary, eu sou infeliz...
Freddie, eu sou infeliz...
Oh, vós todos, todos vós, casuais, demorados,
Quantas vezes tereis pensado em pensar em mim, sem que o fósseis,
Ah, quão pouco eu fui no que sois, quão pouco, quão pouco —
Sim, e o que tenho eu sido, o meu subjetivo universo,
Ó meu sol, meu luar, minhas estrelas, meu momento,
Ó parte externa de mim perdida em labirintos de Deus!

Passa tudo, todas as coisas num desfile por mim dentro,
E todas as cidades do mundo, rumorejam-se dentro de mim ...
Meu coração tribunal, meu coração mercado,
Meu coração sala da Bolsa, meu coração balcão de Banco,
Meu coração rendez-vous de toda a humanidade,
Meu coração banco de jardim público, hospedaria,
Estalagem, calabouço número qualquer cousa
(Aqui estuvo el Manolo en vísperas de ir al patíbulo)
Meu coração clube, sala, platéia, capacho, guichet, portaló,
Ponte, cancela, excursão, marcha, viagem, leilão, feira, arraial,
Meu coração postigo,
Meu coração encomenda,
Meu coração carta, bagagem, satisfação, entrega,
Meu coração a margem, o lirrite, a súmula, o índice,
Eh-lá, eh-lá, eh-lá, bazar o meu coração.

Todos os amantes beijaram-se na minh'alma,
Todos os vadios dormiram um momento em cima de mim,
Todos os desprezados encostaram-se um momento ao meu ombro,
Atravessaram a rua, ao meu braço, todos os velhos e os doentes,
E houve um segredo que me disseram todos os assassinos.

(Aquela cujo sorriso sugere a paz que eu não tenho,
Em cujo baixar-de-olhos há uma paisagem da Holanda,
Com as cabeças femininas coiffées de lin
E todo o esforço quotidiano de um povo pacífico e limpo...
Aquela que é o anel deixado em cima da cômoda,
E a fita entalada com o fechar da gaveta,
Fita cor-de-rosa, não gosto da cor mas da fita entalada,
Assim como não gosto da vida, mas gosto de senti-la ...

Dormir como um cão corrido no caminho, ao sol,
Definitivamente para todo o resto do Universo,
E que os carros me passem por cima.)

Fui para a cama com todos os sentimentos,
Fui souteneur de todas ás emoções,
Pagaram-me bebidas todos os acasos das sensações,
Troquei olhares com todos os motivos de agir,
Estive mão em mão com todos os impulsos para partir,
Febre imensa das horas!
Angústia da forja das emoções!
Raiva, espuma, a imensidão que não cabe no meu lenço,
A cadela a uivar de noite,
O tanque da quinta a passear à roda da minha insônia,
O bosque como foi à tarde, quando lá passeamos, a rosa,
A madeixa indiferente, o musgo, os pinheiros,
Toda a raiva de não conter isto tudo, de não deter isto tudo,
Ó fome abstrata das coisas, cio impotente dos momentos,
Orgia intelectual de sentir a vida!

Obter tudo por suficiência divina —
As vésperas, os consentimentos, os avisos,
As cousas belas da vida —
O talento, a virtude, a impunidade,
A tendência para acompanhar os outros a casa,
A situação de passageiro,
A conveniência em embarcar já para ter lugar,
E falta sempre uma coisa, um copo, uma brisa, urna frase,
E a vida dói quanto mais se goza e quanto mais se inventa.

Poder rir, rir, rir despejadamente,
Rir como um copo entornado,
Absolutamente doido só por sentir,
Absolutamente roto por me roçar contra as coisas,
Ferido na boca por morder coisas,
Com as unhas em sangue por me agarrar a coisas,
E depois dêem-me a cela que quiserem que eu me lembrarei da vida.

Sentir tudo de todas as maneiras,
Ter todas as opiniões,
Ser sincero contradizendo-se a cada minuto,
Desagradar a si próprio pela plena liberalidade de espírito,
E amar as coisas como Deus.

Eu, que sou mais irmão de uma árvore que de um operário,
Eu, que sinto mais a dor suposta do mar ao bater na praia
Que a dor real das crianças em quem batem
(Ah, como isto deve ser falso, pobres crianças em quem batem —
E por que é que as minhas sensações se revezam tão depressa?)
Eu, enfim, que sou um diálogo continuo,
Um falar-alto incompreensível, alta-noite na torre,
Quando os sinos oscilam vagamente sem que mão lhes toque
E faz pena saber que há vida que viver amanhã.
Eu, enfim, literalmente eu,
E eu metaforicamente também,
Eu, o poeta sensacionista, enviado do Acaso
As leis irrepreensíveis da Vida,
Eu, o fumador de cigarros por profissão adequada,
O indivíduo que fuma ópio, que toma absinto, mas que, enfim,
Prefere pensar em fumar ópio a fumá-lo
E acha mais seu olhar para o absinto a beber que bebê-lo...
Eu, este degenerado superior sem arquivos na alma,
Sem personalidade com valor declarado,
Eu, o investigador solene das coisas fúteis,
Que era capaz de ir viver na Sibéria só por embirrar com isso,
E que acho que não faz mal não ligar importâricia à pátria
Porqtie não tenho raiz, como uma árvore, e portanto não tenho raiz
Eu, que tantas vezes me sinto tão real como uma metáfora,

Como uma frase escrita por um doente no livro da rapariga que encontrou no terraço,
Ou uma partida de xadrez no convés dum transatlântico,
Eu, a ama que empurra os perambulators em todos os jardins públicos,
Eu, o policia que a olha, parado para trás na álea,
Eu, a criança no carro, que acena à sua inconsciência lúcida com um coral com guizos.
Eu, a paisagem por detrás disto tudo, a paz citadina
Coada através das árvores do jardim público,
Eu, o que os espera a todos em casa,
Eu, o que eles encontram na rua,
Eu, o que eles não sabem de si próprios,
Eu, aquela coisa em que estás pensando e te marca esse sorriso,
Eu, o contraditório, o fictício, o aranzel, a espuma,
O cartaz posto agora, as ancas da francesa, o olhar do padre,
O largo onde se encontram as suas ruas e os chauffeurs dormem contra os carros,
A cicatriz do sargento mal encarado,
O sebo na gola do explicador doente que volta para casa,
A chávena que era por onde o pequenito que morreu bebia sempre,
E tem uma falha na asa (e tudo isto cabe num coração de mãe e enche-o)...
Eu, o ditado de francês da pequenita que mexe nas ligas,
Eu, os pés que se tocam por baixo do bridge sob o lustre,
Eu, a carta escondida, o calor do lenço, a sacada com a janela entreaberta,
O portão de serviço onde a criada fala com os desejos do primo,
O sacana do José que prometeu vir e não veio
E a gente tinha uma partida para lhe fazer...
Eu, tudo isto, e além disto o resto do mundo...
Tanta coisa, as portas que se abrem, e a razão por que elas se abrem,
E as coisas que já fizeram as mãos que abrem as portas...
Eu, a infelicidade-nata de todas as expressões,
A impossibilidade de exprimir todos os sentimentos,
Sem que haja uma lápida no cemitério para o irmão de tudo isto,
E o que parece não querer dizer nada sempre quer dizer qualquer cousa...
Sim, eu, o engenheiro naval que sou supersticioso como uma camponesa madrinha,
E uso monóculo para não parecer igual à idéia real que faço de mim,
Que levo às vezes três horas a vestir-me e nem por isso acho isso natural,
Mas acho-o metafísico e se me batem à porta zango-me,
Não tanto por me interromperem a gravata como por ficar sabendo que há a vida...
Sim, enfim, eu o destinatário das cartas lacradas,
O baú das iniciais gastas,
A entonação das vozes que nunca ouviremos mais -
Deus guarda isso tudo no Mistério, e às vezes sentimo-lo
E a vida pesa de repente e faz muito frio mais perto que o corpo.
A Brígida prima da minha tia,
O general em que elas falavam - general quando elas eram pequenas,
E a vida era guerra civil a todas as esquinas...
Vive le mélodrame oú Margot a pleuré!
Caem as folhas secas no chão irregularmente,
Mas o fato é que sempre é outono no outono,
E o inverno vem depois fatalmente,
há só um caminho para a vida, que é a vida...
Esse velho insignificante, mas que ainda conheceu os românticos,
Esse opúsculo político do tempo das revoluções constitucionais,
E a dor que tudo isso deixa, sem que se saiba a razão
Nem haja para chorar tudo mais razão que senti-lo.

Viro todos os dias todas as esquinas de todas as ruas,
E sempre que estou pensando numa coisa, estou pensando noutra.
Não me subordino senão por atavisnio,
E há sempre razões para emigrar para quem não está de cama.

Das serrasses de todos os cafés de todas as cidades
Acessíveis à imaginação
Reparo para a vida que passa, sigo-a sem me mexer,
Pertenço-lhe sem tirar um gesto da algibeira,
Nem tomar nota do que vi para depois fingir que o vi.

No automóvel amarelo a mulher definitiva de alguém passa,
Vou ao lado dela sem ela saber.
No trottoir imediato eles encontram-se por um acaso combinado,
Mas antes de o encontro deles lá estar já eu estava com eles lá.
Não há maneira de se esquivarem a encontrar-me,
Não há modo de eu não estar em toda a parte.
O meu privilégio é tudo
(Brevetée, Sans Garantie de Dieu, a minh'Alma).

Assisto a tudo e definitivamente.
Não há jóia para mulher que não seja comprada por mim e para mim,
Não há intenção de estar esperando que não seja minha de qualquer maneira,
Não há resultado de conversa que não seja meu por acaso,
Não há toque de sino em Lisboa há trinta anos, noite de S. Carlos há cinqüenta
Que não seja para mim por uma galantaria deposta.

Fui educado pela Imaginação,
Viajei pela mão dela sempre,
Amei, odiei, falei, pensei sempre por isso,
E todos os dias têm essa janela por diante,
E todas as horas parecem minhas dessa maneira.

Cavalgada explosiva, explodida, como uma bomba que rebenta,
Cavalgada rebentando para todos os lados ao mesmo tempo,
Cavalgada por cima do espaço, salto por cima do tempo,
Galga, cavalo eléctron-íon, sistema solar resumido
Por dentro da ação dos êmbolos, por fora do giro dos volantes.
Dentro dos êmbolos, tornado velocidade abstrata e louca,
Ajo a ferro e velocidade, vaivém, loucura, raiva contida,
Atado ao rasto de todos os volantes giro assombrosas horas,
E todo o universo range, estraleja e estropia-se em mim.

Ho-ho-ho-ho-ho!...
Cada vez mais depressa, cada vez mais com o espírito adiante do corpo
Adiante da própria idéia veloz do corpo projetado,
Com o espírito atrás adiante do corpo, sombra, chispa,
He-la-ho-ho ... Helahoho ...

Toda a energia é a mesma e toda a natureza é o mesmo...
A seiva da seiva das árvores é a mesma energia que mexe
As rodas da locomotiva, as rodas do elétrico, os volantes dos Diesel,
E um carro puxado a mulas ou a gasolina é puxado pela mesma coisa.

Raiva panteísta de sentir em mim formidandamente,
Com todos os meus sentidos em ebulição, com todos os meus poros em fumo,
Que tudo é uma só velocidade, uma só energia, uma só divina linha
De si para si, parada a ciciar violências de velocidade louca...
Ho ----

Ave, salve, viva a unidade veloz de tudo!
Ave, salve, viva a igualdade de tudo em seta!
Ave, salve, viva a grande máquina universo!
Ave, que sois o mesmo, árvores, máquinas, leis!
Ave, que sois o mesmo, vermes, êmbolos, idéias abstratas,
A mesma seiva vos enche, a mesma seiva vos torna,
A mesma coisa sois, e o resto é por fora e falso,
O resto, o estático resto que fica nos olhos que param,
Mas não nos meus nervos motor de explosão a óleos pesados ou leves,
Não nos meus nervos todas as máquinas, todos os sistemas de engrenagem,
Nos meus nervos locomotiva, carro elétrico, automóvel, debulhadora a vapor

Nos meus nervos máquina marítima, Diesel, semi-Diesel,
Campbell, Nos meus nervos instalação absoluta a vapor, a gás, a óleo e a eletricidade,
Máquina universal movida por correias de todos os momentos!

Todas as madrugadas são a madrugada e a vida.
Todas as auroras raiam no mesmo lugar:
Infinito...
Todas as alegrias de ave vêm da mesma garganta,
Todos os estremecimentos de folhas são da mesma árvore,
E todos os que se levantam cedo para ir trabalhar
Vão da mesma casa para a mesma fábrica por o mesmo caminho...

Rola, bola grande, formigueiro de consciências, terra,
Rola, auroreada, entardecida, a prumo sob sóis, noturna,
Rola no espaço abstrato, na noite mal iluminada realmente
Rola ...

Sinto na minha cabeça a velocidade de giro da terra,
E todos os países e todas as pessoas giram dentro de mim,
Centrífuga ânsia, raiva de ir por os ares até aos astros
Bate pancadas de encontro ao interior do meu crânio,
Põe-me alfinetes vendados por toda a consciência do meu corpo,
Faz-me levantar-me mil vezes e dirigir-me para Abstrato,
Para inencontrável, Ali sem restrições nenhumas,
A Meta invisível — todos os pontos onde eu não estou — e ao mesmo tempo ...

Ah, não estar parado nem a andar,
Não estar deitado nem de pé,
Nem acordado nem a dormir,
Nem aqui nem noutro ponto qualquer,
Resol,,,er a equação desta inquietação prolixa,
Saber onde estar para poder estar em toda a parte,
Saber onde deitar-me para estar passeando por todas as ruas ...

Ho-ho-ho-ho-ho-ho-ho

Cavalgada alada de mim por cima de todas as coisas,
Cavalgada estalada de mim por baixo de todas as coisas,
Cavalgada alada e estalada de mim por causa de todas as coisas ...

Hup-la por cima das árvores, hup-la por baixo dos tanques,
Hup-la contra as paredes, hup-la raspando nos troncos,
Hup-la no ar, hup-la no vento, hup-la, hup-la nas praias,
Numa velocidade crescente, insistente, violenta,
Hup-la hup-la hup-la hup-la ...

Cavalgada panteísta de mim por dentro de todas as coisas,
Cavalgada energética por dentro de todas as energias,
Cavalgada de mim por dentro do carvão que se queima, da lâmpada que arde,
Clarim claro da manhã ao fundo
Do semicírculo frio do horizonte,
Tênue clarim longínquo como bandeiras incertas
Desfraldadas para além de onde as cores são visíveis ...

Clarim trêmulo, poeira parada, onde a noite cessa,
Poeira de ouro parada no fundo da visibilidade ...

Carro que chia limpidamente, vapor que apita,
Guindaste que começa a girar no meu ouvido,
Tosse seca, nova do que sai de casa,
Leve arrepio matutino na alegria de viver,
Gargalhada súbita velada pela bruma exterior não sei como,
Costureira fadada para pior que a manhã que sente,
Operário tísico desfeito para feliz nesta hora
Inevitavelmente vital,
Em que o relevo das coisas é suave, certo e simpático,
Em que os muros são frescos ao contacto da mão, e as casas
Abrem aqu; e ali os olhos cortinados a branco...

Toda a madrugada é uma colina que oscila,
...................................................................
... e caminha tudo

Para a hora cheia de luz em que as lojas baixam as pálpebras
E rumor tráfego carroça comboio eu sinto sol estruge

Vertigem do meio-dia emoldurada a vertigens —
Sol dos vértices e nos... da minha visão estriada,
Do rodopio parado da minha retentiva seca,
Do abrumado clarão fixo da minha consciência de viver.

Rumor tráfego carroça comboio carros eu sinto sol rua,
Aros caixotes trolley loja rua i,itrines saia olhos
Rapidamente calhas carroças caixotes rua atravessar rua
Passeio lojistas "perdão" rua
Rua a passear por mim a passear pela rua por mim
Tudo espelhos as lojas de cá dentro das lojas de lá
A velocidade dos carros ao contrário nos espelhos oblíquos das montras,
O chão no ar o sol por baixo dos pés rua regas flores no cesto rua
O meu passado rua estremece camion rua não me recordo rua

Eu de cabeça pra baixo no centro da minha consciência de mim
Rua sem poder encontrar uma sensação só de cada vez rua
Rua pra trás e pra diante debaixo dos meus pés
Rua em X em Y em Z por dentro dos meus braços
Rua pelo meu monóculo em círculos de cinematógrafo pequeno,
Caleidoscópio em curvas iriadas nítidas rua.
Bebedeira da rua e de sentir ver ouvir tudo ao mesmo tempo.
Bater das fontes de estar vindo para cá ao mesmo tempo que vou para lá.
Comboio parte-te de encontro ao resguardo da linha de desvio!
Vapor navega direito ao cais e racha-te contra ele!
Automóvel guiado pela loucura de todo o universo precipita-te
Por todos os precipícios abaixo
E choca-te, trz!, esfrangalha-te no fundo do meu coração!

À moi, todos os objetos projéteis!
À moi, todos os objetos direções!
À moi, todos os objetos invisíveis de velozes!
Batam-me, trespassem-me, ultrapassem-me!
Sou eu que me bato, que me trespasso, que me ultrapasso!
A raiva de todos os ímpetos fecha em círculo-mim!

Hela-hoho comboio, automóvel, aeroplano minhas ânsias,
Velocidade entra por todas as idéias dentro,
Choca de encontro a todos os sonhos e parte-os,
Chamusca todos os ideais humanitários e úteis,
Atropela todos os sentimentos normais, decentes, concordantes,
Colhe no giro do teu volante vertiginoso e pesado
Os corpos de todas as filosofias, os tropos de todos os poemas,
Esfrangalha-os e fica só tu, volante abstrato nos ares,
Senhor supremo da hora européia, metálico a cio.
Vamos, que a cavalgada não tenha fim nem em Deus!
...............................................................
...............................................................
...............................................................
...............................................................

Dói-me a imaginação não sei como, mas é ela que dói,
Declina dentro de mim o sol no alto do céu.
Começa a tender a entardecer no azul e nos meus nervos.
Vamos ó cavalgada, quem mais me consegues tornar?
Eu que, veloz, voraz, comilão da energia abstrata,
Queria comer, beber, esfolar e arranhar o mundo,
Eu, que só me contentaria com calcar o universo aos pés,
Calcar, calcar, calcar até não sentir.
Eu, sinto que ficou fora do que imaginei tudo o que quis,
Que embora eu quisesse tudo, tudo me faltou.

Cavalgada desmantelada por cima de todos os cimos,
Cavalgada desarticulada por baixo de todos os poços,
Cavalgada vôo, cavalgada seta, cavalgada pensamento-relâmpago,
Cavalgada eu, cavalgada eu, cavalgada o universo — eu.
Helahoho-o-o-o-o-o-o-o ...

Meu ser elástico, mola, agulha, trepidação ...
Álvaro de Campos, 22-5-1916

Tuesday, May 06, 2014

Memória - Rentes de Carvalho

"Relâmpagos de memória. Tão vivos como se os factos acabassem de acontecer. Por vezes incómodos, feitos juízes, opondo-se aos arranjos que inconscientemente propomos para moldar as versões do passado. Desagradáveis também, recusando sumir no fundo para onde os queremos empurrar. Ou meigos como ternuras de amante, embelecendo a lembrança, colorindo e tornando duradouro o que foi cinzento, o que foi fugaz. A memória que nos põe em palcos onde nunca estivemos, fazendo-nos ouvir o aplauso nunca recebido. A memória, com os seus sobressaltos e mistérios, as suas sombras, cheias de ziguezagues, reviravoltas e impasses. Cheia também de armadilhas em que de boa vontade caímos, a tecer a interminável teia do que não foi mas podia ter sido, da ficção tornada real à força de sonhada. A memória e o seu comparsa, o esquecimento."

José Rentes de Carvalho in "La Coca"

Friday, August 09, 2013

"Cidades Invisíveis" de Italo Calvino



As "Cidade Invisíveis" é um romance diferente, inspirador, mágico... tem nas suas páginas passagens incrivelmente maravilhosas. Marco Polo relata na perfeição ao imperador Kublai Khan todas as suas cidades imaginárias e todas elas com nomes de mulheres. Há cidades que deixam o leitor a levitar na sua própria descrição. Aqui fica o remate final de Marco Polo:

"O inferno dos vivos não é uma coisa que virá a existir; se houver um, é o que já está aqui, o inferno que habitamos todos os dias, que nós formamos ao estarmos juntos. Há dois modos para não o sofrermos. O primeiro torna-se fácil para muita gente: aceitar o inferno e fazer parte dele a ponto de já não o vermos. O segundo é arriscado e exige uma atenção e uma aprendizagem contínuas: tentar e saber reconhecer, no meio da inferno, quem e que não é inferno, e fazê-lo viver, e dar-lhe lugar."

Thursday, July 25, 2013

Atreves-te a voar?

A gaivota voa pela primeira vez e lá do alto:
"- Estou a voar! Zorbas! Sei voar - grasnava ela, eufórica, lá da vastidão do céu cinzento.
O humano acariciou o lombo do gato.
- Bem, gato, conseguimos - disse suspirando
- Sim, à beira do vazio compreendeu o mais importante - miou Zorbas.
- Ah, sim? E o que é que ela compreendeu? - perguntou o humano
- Que só voa quem se atreve a fazê-lo - miou Zorbas."
Luis Sepúlvuda, in 'História de uma gaivota e do gato que a ensinou a voar'

Sunday, June 09, 2013

Debate eslavo, húngaro acerca da ausência.

É de facto curioso o que li esta semana na "Cotovia" de Dezsö Kosztolányi. A Cotovia embarca na sua viagem e o autor descreve a sua partida da seguinte forma:

"Quem parte é alguém que desaparece, se aniquila, já não existe. Vive exclusivamente como lembrança, que visita com frequência a nossa imaginação. Sabemos que está algures mas não o vemos, tal como os que morreram"

É uma perspectiva um pouco melodramática mas que de entre todo o seu exagero da partida não deixa de ter alguma razão na evidente quebra de sinal e correspondência entre dois seres humanos. É óbvio que torna-se dramático falar neste sentido sabendo que a Cotovia apenas estaria fora uma semana e neste caso Milan Kundera sabe bem definir o que podemos sentir nestes momentos de ausência:

"Styska se mi po tobe"

Friday, May 24, 2013

Luis Sepúlvuda - História de de um gato e de um rato que se tornaram amigos

Muito bom, vale mesmo a pena, devorei-o em minutos, o livro é pequeno mas enche-nos bastante a alma!


Monday, April 08, 2013

"Identidade" Kundera, "Stasiland" Anna Funder


Hoje dei como terminadas duas leituras, "Stasiland" da australiana Anna Funder e "Identidade" de Milan Kundera. Deve ter sido a primeira vez na vida que acabei dois livros no mesmo dia e, como tal, é algo a registar. Os dois acabam por ter uma relação curiosa entre si, se os sobrepormos e delinearmos os mesmos na história mundial conseguimos subentender que na antiga RDA, havia claramente uma identidade muito própria, de tal forma que muitos, para além do Muro, no lado Leste, perderam a sua própria... identidade. "Stasiland" conta-nos várias histórias sobre a Alemanha do Leste, testemunhos reais de pessoas que sofreram na pele a herança estalinista, de pessoas que fizeram parte dos esquemas de perseguição e espionagem e tudo isto é, realmente, impressionante porque há muita gente que desconhece todo o drama dos anos em que as Alemanha's estiveram separadas. Há um facto muito curioso e que define a grandeza da Stasi na antiga RDA: "Após a queda do Muro, os meios de comunicação social alemães chamaram à Alemanha do Leste «o estado de vigilância mais aperfeiçoado de todos os tempos.». No total, a Stasi contava com 97000 funcionários - mais do que o suficiente para fiscalizar um país de 17 milhões de pessoas. Mas contava igualmente com mais de 173000 informadores entre a população. No Terceiro Reich de Hitler, estima-se que havia um agente da Gestapo para cada 2000 cidadãos, e na Rússia de Estaline havia um agente da KGB por cada 5830 pessoas. Na RDA, havia um agente ou informador da Stasi por cada 73 pessoas. Se forem incluídos os informadores em tempo parcial. algumas estimativas apresentam um número tão elevado como um informador para cada 6,5 cidadãos."
"Identidade" é o meu terceiro livro de Milan Kundera depois de "Ignorância" e "Insustentável leveza do Ser". A "Identidade" é uma busca profunda ao que significamos; é um livro de rápida leitura, a não ser que se vá lendo exclusivamente nas pausas literárias (10 minutos) do trabalho literário. Há no livro um parágrafo que define bem a busca e define também muito dos alemães do Leste e a ex-RDA "Qual foi o momento exacto em que o real se transformou em irreal, a realidade em devaneio? Onde estava a fronteira? Onde está a fronteira?" 
"Stasiland" já não é editado no nosso país.

Wednesday, March 06, 2013

"Memórias de um Livreiro" por George Orwell

"Quando trabalhei num alfarrabista - um lugar que aqueles que nunca lá trabalharam facilmente imaginam como uma espécie de paraíso onde respeitáveis cavalheiros de ar simpático folheiam eternamente in-fólios encadernados -, o que mais me impressionou foi a escassez de verdadeiros amantes de livros. Apesar de a nossa livraria dispor de um lote de obras excepcionalmente interessante, duvido que sequer 10 por cento dos nossos clientes soubesse distinguir os bons livros dos que não prestam. Snobes à cata de primeiras edições eram bem mais numerosos do que apaixonados pela literatura, mas estudantes orientais a regatear o preço dos compêndios baratos eram ainda mais numerosos, e mulheres despassaradas em busca de presentes de aniversário para os sobrinhos eram as mais numerosas de todos.
Muitos dos que cruzavam a nossa porta eram o género de indivíduos capazes de importunar tudo e todos em qualquer lugar, mas, numa livraria, dispunham de um campo de manobra especialmente vasto. Por exemplo, a encantadora velhinha que «quer um livro para um inválido» (um pedido bastante comum, diga-se), ou a outra encantadora velhinha que leu um livro delicioso em 1897 e deseja saber se lhe conseguimos arranjar um exemplar. Infelizmente, não se lembra do título do livro nem do nome do autor nem sequer do tema da obra, mas recorda-se, isso sim, de que tinha capa vermelha. À parte estes, porém, dois géneros bem conhecidos de praga assolam todos os alfarrabistas. Em primeiro lugar, temos o fulano de ar decrépito, a cheirar a côdeas bolorentas, que vem à livraria todos os dias, mais do que uma vez por dia em certos casos, tentando vender-nos livros imprestáveis. Em segundo lugar, há a pessoa que encomendas grandes quantidades de livros, sem ter a mais pequena intenção de os pagar. Na nossa loja nunca vendíamos a crédito, mas púnhamos obras de parte, ou encomendávamo-las a outras livrarias, se necessário, para pessoas que combinavam vir buscá-las mais tarde. Nem metade dos indivíduos que nos encomendavam livros chegavam a vir levantá-los. A princípio, isto deixava-me intrigado. O que é que os levaria a fazer isto? Entravam, pediam um livro raro e dispendioso, obrigavam-nos a prometer vezes sem conta que lho iríamos reservar e, em seguida, desapareciam para sempre sem deixar rasto. Como é óbvio, muitas destas pessoas eram, sem sombra de dúvida, paranóicas. Falavam de si próprias em tom grandiloquente e contavam as histórias mais rocambolescas para explicar o facto de terem saído de casa sem um tostão no bolso - histórias estas a que, em muitos casos, elas próprias davam crédito, tenho a certeza. Numa cidade como Londres, há sempre imensos loucos a quem esse estatuto não é reconhecido, e que têm tendência para convergir para as livrarias, já que uma livraria é um dos poucos lugares onde se pode permanecer imenso tempo sem se gastar dinheiro. No fim de contas, a experiência ensina-nos a reconhecer estas pessoas quase à primeira vista. Não obstante as fanfarronadas e a bazófia, há nelas qualquer coisa de roído pela traça e de errático. Muitas vezes, quando estávamos a lidar com um paranóico óbvio, púnhamos de parte os livros que ele pedia e, mal o víamos sair porta fora, tornávamos a arrumá-los nas estantes. Nenhum destes fulanos, pude reparar, alguma vez tentou elevar livros sem pagar; reservá-los constituía satisfação suficiente - proporcionava-lhes, julgo eu, a ilusão de estarem a gastar dinheiro genuíno.
À semelhança da maioria dos alfarrabistas, não nos limitávamos a vender livros em segunda mão. Vendíamos também máquinas de escrever usadas, por exemplo, e também selos - selos usados, quero eu dizer. Os filatelistas são uma casta estranha, silenciosa, semelhante a uma variedade de peixes, de todas as idades, mas apenas do sexo masculino; as mulheres, aparentemente, mostram-se insensíveis ao estranho encanto do acto de colar quadradinhos de papel colorido em álbuns. Também vendíamos horóscopos a seis dinheiros, compilados por alguém que se gabava de ter previsto o terramoto no Japão. Vinham em sobrescritos fechados e eu próprio nunca abri nenhum, mas era frequente as pessoas que os compravam regressarem mais tarde, dizendo-nos que o horóscopo se revelara «certíssimo». (Sem dúvida, qualquer horóscopo nos parece «certíssimo» se disser que somos extremamente atraentes aos olhos do sexo oposto e que o nosso pior defeito é a generosidade). Fazíamos bom negócio coma venda de livros infantis, sobretudo restos de edição a preços de saldo. Os modernos livros infantis são objectos bastante horrendos, principalmente quando os vemos em grandes quantidades. (...)"

Isto é por demais real... vale a pena ler o resto, dirija-se a uma livraria e compre o livrinho.

George Orwell, in 'Livros &Cigarros'

Sunday, February 03, 2013

O momento "Terminal"

Estou, particularmente, satisfeito por ter feito uma mini campanha ao género de "Terminal". Foram só horas, bem diferente dos muitos dias passados por Tom Hanks no terminal do John F. Kennedy, em Nova Iorque. Não é todos os dias que vamos até ao Aeroporto da Portela ler umas páginas de Mo Yan e comer algumas fatias de um enjoativo bolo de laranja. E dito isto, entre viadutos e pontes, somos ambos casos perdidos e... ainda bem!

Monday, January 28, 2013

"Great Gatsby" de F. Scott Fitzgerald


"The Great Gatsby" de F. Scott Fitzgerald é considerado uma das grandes obras da literatura clássica mundial, enquadrando-se como uma referência na literatura norte-americana. Este clássico passeava-se há algum tempo sobre uma das minhas estantes, estava em lista de espera mas finalmente tomou a sua vez. O "Grande Gatsby" dá-nos uma forte mensagem; tantas vezes programamos e estabelecemos a vida em função de outros, tantas vezes sonhamos tão alto e projectamos um ideal dissimulado que outrora parecia-nos, de certa forma, conveniente. A busca desmedida pode levar-nos a uma desgraça que não estaria, certamente, nos planos. Assim aconteceu com Jay Gatsby que criou um espaço em busca da sua grande paixão, deixou de viver a sua vida natural lançando-se numa vida expectante, de incerteza, de uma busca pela sua antiga Daisy. Gatsby encontraria Daisy, mas essa busca acabaria por ditar a sua desgraça.

Thursday, January 03, 2013

"É um livro" de Lane Smith


Fantástico e a caminho de casa! :D

Wednesday, January 02, 2013

Ano Novo" em "Desespero" por Vladimir Nabokov

Foi mais ou menos neste espírito que cheguei ao Ano Novo; recordo a carcaça negra dessa noite, essa noite sustendo a sua respiração de bruxa idiota para o bater da hora sacramental. À vista, sentados à mesa; Lydia, Ardalion, Orlovius e eu, muito quieto, com a rigidez brasonada das criaturas heráldicas. Lydia com o cotovelo na mesa, o indicador erguido atentamente, os ombros nus, o vestido tão variegado como o verso de uma carta de jogar; Ardalion, agasalhado com uma manda de viagem (por causa da porta da varanda aberta), um brilho vermelho na gorda cara leonina; Orlovius, de fraque preto, óculos reluzentes, colarinhos virados, a engolir as pontas do laço preto; e eu, o Raio Humano, iluminando toda a cena.
Óptimo, agora já podemos mexer-nos, sê rápido com essa garrafa, o relógio vai dar as badaladas. Ardalion serviu o champanhe e ficámos todos quietos e calados outra vez. De esguelha e por cima dos óculos, Orlovius olhou para a sua velha cebola de prata, pousada na toalha: ainda faltam dois minutos. Alguém na rua foi incapaz de aguentar mais tempo e estourou com um grande estampido; e depois de novo o silêncio. Fitando o seu relógio, Orlovius estendeu lentamente para o seu copo uma mão senil com as garras de um grifo.
De súbito, a noite cedeu e começou a rasgar; da rua chegavam aclamações; com os nossos copos de champanhe, saímos para a varanda, que nem reis. Os foguetes zuniam muito acima da rua e com um estrondo rebentavam em lágrimas brilhantes de cor; e em todas as janelas, em todas as varandas, enquadrados nos triângulos e quadrados de luzes festivas, havia gente a gritar uma e outra vez a mesma saudação idiota.

Vladimir Nabokov, in 'Desespero'

Saturday, December 29, 2012

"Natal" por Fernando Pessoa


Natal… Na província neva.
Nos lares aconchegados,
Um sentimento conserva
Os sentimentos passados.

Coração oposto ao mundo,
Como a família é verdade!
Meu pensamento é profundo,
Estou só e sonho saudade.

E como é branca de graça
A paisagem que não sei,
Vista de trás da vidraça
Do lar que nunca terei!

Fernando Pessoa

Natal... é quando o homem quiser.

Sunday, December 16, 2012

Um cantinho de perfeição...


Cantos de perfeição, como os 10 cantos de "Os Lusíadas". Há um poema em cada lugar, há um espectro de romance em cada canto.

Friday, December 14, 2012

"As regras do Tagame" Kenzaburo Oe


Ando a coleccionar histórias com mais vivacidade e intensidade no meu Tagame mental. "As regras do Tagame" conta a história de dois amigos que se separam após o suicídio de Goro. Na última fase da vida de Goro, um cineasta reconhecido, este gravara diversas cassetes com reflexões acerca da sua vida ao qual Kogito é um dos principais intervenientes. É uma história curiosa onde Kogito passa grande parte do tempo numa conversação com um gravador de cassetes carregando inúmeras vezes no "pause" para intervir e "play" para deixar o seu amigo "do outro lado" continuar a dialogar num monólogo poderoso. 


Saturday, November 10, 2012

"Nem aqui, nem ali" Bill Bryson


Fiz uma paragem nos russos até porque a intensidade que nos oferecem nos deixam por vezes sem fôlego. Pois bem há meses atrás tinha comprado este livro do Bill Bryson, uma literatura de viagem suave, divertida e interessante. Embora as memórias sejam de há muitos anos atrás é interessante encontrar várias facetas escondidas de uma Europa que no seu entretanto mudou bastante em alguns pontos. Já não era virgem nas leituras de Bill Bryson já antes tinha lido "Uma Breve história de quase tudo" e tinha achado bastante interessante. Este norte-americano sabe como cativar um leitor e ensinar-lhe sempre qualquer coisa de uma forma divertida. Vale a pena viajar com Bryson desde Hammerfest até Istambul.

Wednesday, October 31, 2012

"As neves de Kilimanjaro", Ernest Hemingway

Ontem fui enganado, foi um erro sem intenção mas fui enganado. Fui até ao Wall Street para mais uma aula e quando cheguei e professora vira-se para mim e diz "Grande sentido de pontualidade, M., chegou com uma hora de antecedência" Pois bem marcaram-me no meu horário uma hora e a aula estava marcada para a hora seguinte. Apenas uma justificação para chegarmos ao ponto de interesse. Sentei-me no sofá, a recepcionista gentilmente preparou-me um café e decidi ir à mini-biblioteca resgatar um livro para me entreter. Hemingway captou a minha atenção. "As neves de Kilimanjaro" era um livro que nunca tinha lido e continua por ler dado não ter acabado nem de perto nem de longe o livro... no entanto a história é cativante e motiva-nos a ler até ao fim, pelo menos foi assim no meu caso. Bom, houve algo nas primeiras páginas que cativou-me particularmente. Num diálogo entre Harry Street e a sua mulher, Hemingway assinala a melhor forma dos seres humanos se destruírem:


E por aqui nos ficamos! Cordialmente, Ernest Hemingway!

Friday, October 26, 2012

Levin em "Anna Karénina", Lev Tolstoi

Chegando ao fim de mais um daqueles livros que se devem ler até ao final da nossa vida temos sempre um sabor agridoce: a satisfação de ter consumido uma bela história e a tristeza do fim de uma história que nos deixa com saudade tal como nos deixou Anna Karénina após o seu desaparecimento na estação de Nijni Novgorod. É tempo de recordar uma das belas passagens num retrato de vida de Levin:

"Continuarei a zangar-me do mesmo modo com o cocheiro Ivan, continuarei a discutir, a exprimir os meus pensamentos fora de propósito, continuará a haver um muro entre o santo dos santos da minha alma e as outras pessoas, até a minha mulher, continuarei a culpá-la pelo medo e a arrepender-me disso, continuarei sem compreender com a razão porque rezo, mas a minha vida, toda a minha vida, independentemente de tudo o que me possa acontecer, cada minuto dela, não só deixará de ser sem sentido como era antes, mas terá o inquestionável sentido do bem, que está em meu poder investir nela."

Lev Tolstoi, in 'Anna Karénina'

Sunday, October 14, 2012

Aí está ele... o primeiro sopro de Outono


Naquela tarde saí à rua e depois de tempos áridos e quentes senti pela primeira vez o sopro do Outono e com tanta saudade a recebi. Era calmo, amigável e dócil, era frio, arrepiante e sereno. Aquela brisa trouxe à tona uma série de pensamentos flutuantes e podia dizer, de facto, que até certo ponto eram brilhantes mas que de tanta alma consumida poderia converter-se em factos exorbitantes ou quiçá perturbantes. Aquela era uma caminhada do meio de tarde, mas os tempos mudaram e soava a final de dia, o sol ainda metia inveja ao horizonte, abanava as asas e fugia para que o tempo se eternizasse e a noite se acumulasse para outra rumaria. E eu embalado naquela senda caminhava destemido pois a brisa de Outono abraçava-se, recolhia-me numa ternura que me ia aos poucos completando. Hoje, contínuo a pensar naquele sopro de vida, naquele embaraço... um sorriso aberto, a brisa a passar, uma mão que se alastra...

M.M

Friday, October 05, 2012

"Quando nos apaixonamos"

"Quando nos apaixonamos, ou estamos prestes a apaixonar-nos, qualquer coisinha que essa pessoa faz – se nos toca na mão ou diz que foi bom ver-nos, sem nós sabermos sequer se é verdade ou se quer dizer alguma coisa — ela levanta-nos pela alma e põe-nos a cabeça a voar, tonta de tão feliz e feliz de tão tonta. E, logo no momento seguinte, larga-nos a mão, vira a cara e espezinha-nos o coração, matando a vida e o mundo e o mundo e a vida que tínhamos imaginado para os dois."

Miguel Esteves Cardoso, in 'Jornal Público


Friday, September 14, 2012

A ruína começou há muito tempo atrás

Vivemos no ano de 2012 e a perspectiva de um futuro infernal (que lembra-me toda aquela convulsão de ideias e pensamentos negativos que nos percorrem quando analisamos afincadamente  "Crime e Castigo") para Portugal e, consequentemente, para a grande maioria dos portugueses é hoje um tema em foco e, de certa forma, muito preocupante. Mas os problemas não são de hoje, seguindo uma linha de alguns escritores estamos a ser "massacrados" por lideranças destrutivas há décadas. Eça de Queirós escreveu sobre a crise em 1891, Tomas Transtromer, prémio Nobel da Literatura de 2011, que guardava uma paixão pelo nosso país escreveu sobre Lisboa e o ponto de situação da mesma numa passagem por Portugal em 1981.

"Que fazer? Que esperar? Portugal tem atravessado crises igualmente más: - mas nelas nunca nos faltaram nem homens de valor e carácter, nem dinheiro ou crédito. Hoje crédito não temos, dinheiro também não - pelo menos o Estado não tem: - e homens não os há, ou os raros que há são postos na sombra pela Política. De sorte que esta crise me parece a pior - e sem cura. "

Eça de Queirós, in 'Correspondência (1891)

"No bairro de Alfama os eléctricos amarelos cantavam nas subidas. 

Havia duas prisões. Uma delas era para os ladrões
Que acenavam através das grades. 
Gritavam, queriam ser fotografados! 

"Mas aqui", dizia o guarda-freio com um riso de hesitação, 
"aqui sentam-se os políticos". Eu vi a fachada, a fachada, a fachada."


Tomas Tranströmer, in '50 Poemas'




Wednesday, September 12, 2012

A dor de cabeça de um livreiro...


A verdadeira dor de cabeça de um livreiro genuíno é o de querer tudo o que lhe desperta a atenção. Comigo não foge à regra e isso de facto envaidece-me mas também deixa-me com a carteira bem mais vazia. Contudo não é por aí que a tristeza me chega, os livros e as histórias fazem esquecer as síndromes de austeridade e do pânico geral que por aí vai... é caso para isso. Todos os livros acima foram presenteados por mim próprio aquando dos meus 27. De hoje em diante vou começar a presentear-me pelo Natal e por aí fora até aos 28. É uma saga que não terá fim, eu hei-de arrumar livros na ordem e hei-de ficar com mais apetites literários aquando dessa tarefa diária. "Crime e Castigo" check, "Contos de Tchékhov" em andamento, "Anna Karenina" em andamento... e com tanto ainda para ler já ando namorar "Guerra e Paz" para o Natal! Tenho dito, esta vida de livreiro é uma verdadeira tentação.

Monday, September 10, 2012

"A Clareira" de Tomas Tranströmer

"”Det finns mitt i skogen en oväntad glänta som bara kan hittas av den som gått vilse.
Gläntan är omsluten av en skog som kväver sig själv.
Svarta stammar med lavarnas askgrå skäggstubb. 
De tätt sammanskruvade träden är döda ända upp i topparna där enstaka gröna kvistar vidrör ljuset.
Därunder: skugga som ruvar på skugga, kärret som växer.
Men på den öppna platsen är gräset underligt grönt och levande.”

"No coração da floresta há uma clareira inesperada que só pode ser encontrada por alguém que nela se perca.  
Está cercada por arvoredo que se asfixia a si próprio. Rodeiam-na troncos enegrecidos com vermes de barbichas cinzentas. Fortemente enrolados uns nos outros, esses troncos estão mortos até às copas, onde alguns ramos roçam a luz. Em baixo: sombra sobre sombra, o pântano em formação. 
Curioso: na clareira a erva está milagrosamente viva, viçosa."


Tomas Tranströmer in "50 Poemas"